segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Pra vocês, então, tudo é igreja, né?

Sete e meia da matina e a tropa já estava de pé. Afinal de contas, a partir das oito o estacionamento na rua era pago e a gente tinha que meter moeda no controle pra evitar uma indesejada multa. Pra completar, o período máximo de permanência seria de duas horas, de modo que a gente tinha que voltar às dez e tomar a direção de Munique na Alemanha, o passo seguinte da epopéia peladeirista no velho continente.

Pois bem, saímos pra fazer as costumeiras comprinhas de presentes e lembranças (de copinho de vidro a relógio suíço. Aliás, como se pede um relógio suíço na Suíça? E um queijo suíço? E um canivete suíço?). Demos a sorte de entrar em uma loja cuja vendedora era portuguesa, o que facilitou sobremaneira a comunicação (sem contar que permitiu à galera abusar do chocolatinho de brinde oferecido educadamente. Acho que ela nunca mais vai querer vender pra brasileiro). Aproveitamos pra adquirir também o adesivo da bandeira local (a gente compra adesivo de cada país em que passa e cola na traseira do motorhome. Aguardem fotos) e abusar da hospitalidade dos zuriquenses (ou zuriquenhos, ou zuriquianos, ou seja lá o que for).

Chega de Suíça, bora pra Alemanha. Um erro no caminho e acabamos cortando um pedacinho da Áustria e atravessando um túnel enorme que caiu em terras Germânicas. De repente, quilômetros após a fronteira, nevasca total, tudo que esperávamos pra iniciar a tão desejada guerra de neve. De imediato, encostamos o motorhome no acostamento e, devidamente paramentados, descemos para o combate. Pancadaria, bolas brancas voando e acertando precisamente a cabeça dos colegas. Os que passavam na estrada com certeza imaginaram se tratar de um grupo de retardados, tipo caipira que nunca viu prédio na vida. Juliano foi o mais alvejado, tal qual se poderá verificar em filme feito na ocasião.

Antes de Munique, uma parada em Dachau, o primeiro Campo de Concentração criado pelos Nazistas, onde mais de trinta mil pessoas foram oficialmente assassinadas. Arrepia, negócio sinistro mesmo. O lugar é gigantesco, formado por prédios conservados desde a época da libertação ao final da segunda guerra. Muitos apetrechos estão à disposição dos visitantes no museu criado, e o dormitório foi mantido com as camas rústicas e os sanitários indignos. Há um monumento aos mortos que emociona de tão “legal”, uma figura formada por esqueletos, sob a qual se deposita sempre uma flor. A gente só não aproveitou mais porque tivemos apenas meia hora antes de fechar, e ainda por conta do frio congelante, intensificado pela chuva insuportável.

Na entrada de Munique, uma pausa para fotos diante do Estádio Allianz Arena, o campo do Bayern, um dos times mais fortes da Alemanha, utilizado na Copa do Mundo do ano passado. Deus do Céu. O Estádio simplesmente muda de cor. Ele é formado por milhares e milhares de placas de luz que o envolvem, e que ficam verdes, brancas, vermelhas, negras e azuis. Pena que estava fechado por ser sábado à noite, e pudemos tão somente tirar alguns retratos de fora do perímetro do estacionamento. Nem deu pra procurar a lojinha e fazer o tradicional tour. Mesmo assim, vista campeã, coisa imperdível para um admirador do esporte bretão.

O centro da capital da Baviera agrada demais. Cheio de prédios históricos, muitos deles reconstruídos parcialmente após a segunda guerra. Eram usados por Hitler e seus asseclas, e segundo soubemos, há túneis subterrâneos ligando um a outro. Causantíssimos, deixamos o motrohome em um suposto estacionamento público e saímos para circular, conhecer os picos e cantar músicas estranhas pelas ruas (o que sempre faz com que a galera passe pela gente dando risada). Cara, como tem igreja nessa tal de Europa! Depois de um tempo, a gente não pode ver um prédio pontudo que já pensa que é igreja. Foi depois de alguém apontar um canto qualquer e dizer “olha lá uma igreja!” que Naldoni soltou a pérola a qual encabeça o texto de hoje: “Aaaah, pra vocês tudo é igreja então?” Virou lema.

Duas igrejas depois e alguns monumentos mais tarde, resolvemos retornar à nossa atual morada sobre rodas. Aí começa a aventura do dia. Chegamos ao motorhome e... a porta estava simplesmente escancarada. “Pronto, fomos roubados”, foi o que todo mundo pensou. Dinheiro, computador, câmeras reservas, celular, roupas, já era. Qual não foi nossa surpresa quando entramos e vimos que nada, absolutamente nada foi mexido. Nem o lixo que impregna o ambiente foi levemente revirado; tudo estava nos conformes. Agradecíamos aos céus quanto alguém bateu na porta. Era um segurança, dizendo que ali não se podia acampar. Aliviados, resolvemos sentar o pé para a Áustria, ou, mais precisamente, para a sua capital Viena, o stop seguinte do roteiro. Vale dizer que até agora simplesmente não sabemos o que aconteceu.

Munique, todavia, ainda tinha mais alguns truques guardados na manga para nós. Nem bem saímos do tal estacionamento e damos de cara com uma viatura policial. E aí... aí foi a nossa estréia em termos de abordagem. Os polizei pediram que apresentássemos passaportes e explicássemos a nossa presença por ali. Nada de agressivo, bem tranqüilo, foram respeitosos e não embaçaram nada. Procuravam drogas (cannabis, segundo um deles). Felizmente, a nossa está bem escondida (ou o que restou dela, pois já fumamos a maior parte) e os puliças não encontraram nada (é, aqui não tem Capitão Nascimento, ehehehehehe).

Temerosos de novas desgraças, tocamos para Viena. Os quatrocentos e poucos quilômetros foram vencidos no sistema de revezamento, e por volta das cinco e pouco encostamos em um posto, já na capital Austríaca, para dormir. Dez da manhã acordamos congelados (o gás acabou, a galera não conseguiu instalar o reserva e ficamos sem calefação) e partimos em busca de um camping, encontrado hora e meia mais tarde. O camping é tesão, tem internet pra atualizar o blog, cozinha e banheiros limpos e razoavelmente confortáveis (exceto pelo sistema do chuveiro, tipo aquelas torneiras de Shopping que a gente aperta, sai um tanto de água e depois pára).

Neve, neve, neve, neve, neve!

Destaque do jogo: Guerra de neve na entrada da Alemanha
O pior em campo: Dar de cara com o Motorhome escancarado.
O mais bizarro: A língua local (não dá pra entender bulhufas)
O gol mais bonito: Allianz Arena
O lance da Noite: Monumento do campo de Concentração
O mais desleal: Hitler. Foda.
O mais mortinho: Não é pra brincar, mas depois de ir a um Campo de Concentração...
O mais fominha: Burger King em Munique, comemos o maior lanche que já vimos em uma lanchonete de rede.
A muralha: Não d;a pra fugir do campo de Concentração mesmo... cerca, cerca, muro e torre de vigilância.