Reta final de viagem, galera absolutamente morta. Acrescente-se uma pitada de total relaxo e desmanzelo e... voilá! Tá pronta a receita da cagada. A gente foi se dar conta de que a balsa saía às onze, e não as onze e meia como pensávamos, somente de manhã, quando o tempo já estava no limite. O GPS acusava como horário de chegada 11h10, e o relógio de nossos pulsos apontava algo em torno das 10h15. Partimos, pois, como desesperados para o trecho de cerca de 120 quilômetros a ser vencido em menos de uma hora exata pretendêssemos chegar a tempo para a travessia ao território francês.
Se você está dentro de um bom carro, dirigindo em mão normal (e não invertida, como é o caso da inglesa), em uma pista que conhece (sabe onde ficam os radares, especialmente), a idéia não é, digamos, tão assustadora. Mas em um jumbo como é o motorhome, na Ing;aterra, em uma estrada X, manter mais de 120 quilômetros por hora de média é tarefa pra Schumacher nenhum botar defeito. Marcelo assumiu a carga, tascou o pé no acelerador e fez o bichinho cantar dobrado. 120, 130, 138 por hora, o trombolho balançava que nem montanha russa de parque vagabundo. Freio? O piloto automático simplesmente não deixava baixar dos 120. E, a cada seis quilômetros, ganhávamos um precioso minuto, que o GPS foi debitando de nosso horário estimado de chegada.
Momento de tensão: O motorhome desgruda do chão. Nossa, deu medo. Foi um breve microssegundo de cagaço, daqueles que dá tempo de pensar “putz, deu merda, por que a gente não saiu antes?”. Nervos recompostos, seguimos o esticadão até cairmos em Dover, o lado litorâneo da ilha da Rainha, às 11h57 exatamente. Comemoramos efusivamente, mas... perdemos a balsa. O saldo positivo foi que, provavelmente por chegarmos dentro do limite de tolerância, não pagamos a multa de atraso. O negativo? Fora o medo desgraçado, a larguíssima probabilidade de termos levado uma senhora multa de radar (se bem que a gente observou que os carros sentavam o pé, todos em maior velocidade que a gente).
A travessia de balsa não foi tão tranqüila quanto a da vinda. O barco balançou demais e deixou o povo mareado, com tontura e sonolência. Acabamos dormindo nos bancos e cadeiras do deck principal, ao agradável som de um maldito garoto francês que brincava com os seus pais gritando feito um louco. Olha, depois de 23 dias de viagem, cansaço acumulado, irritação e et cetera e tal, foi duro agüentar. Mais um tiquitinho e a gente pegava o pentelho e jogava no oceano. Insuportável. Foram 50 minutos que geraram muitas risadas e promessas de assassinato pelo restante do dia.
Do lado francês, paramos no Carrefour em Calais para a última compra européia, além de dar um trato no veículo – ah, ele estava de pneu murcho e sem nenhum combustível. Marcelo e Juliano fizeram a despesa enquanto os demais preparavam a refeição do dia, qual seja, macarrão a bolonhesa e refrigerante. Putz, como a gente toma refrigerante também. O que tem de nego prometendo voltar pra academia aqui não tá escrito. Terminamos o rango, arrumamos as coisas e seguimos para a Cidade Luz, Paris, penúltima escala do roteiro (a última de efetivas visitas), mas não menos aguardada do que as demais.
Chegamos a Paris por volta das dez e meia da noite. Felizmente, não foi tão complicado encontrar um Camping. A parte ruim é que o Camping não tem internet (pra variar) e... meu Deus, como fede essa desgraça de banheiro. Absolutamente nojento. Apanhamos um mapa e fizemos todo o planejamento das visitas de amanhã, as quais devem encolver uma caminhada de – acreditem – cerca de quinze quilômetros. Suportarão os nobres peladeiros mais este desafio com o fim de dissecar por inteiro a capital francesa? Confira o resultado amanhã, neste mesmo bat blog, nesse mesmo bat computador e nessa mesma bat internet. Aliás, cadê o Bátima?
Nota: O título se justifica pela alcunha atribuída ao nosso segundo piloto, Naldoni, o famigerado Carregador de Porcos. A razão do apelido está na maneira pouco sutil com que o caro peladeiro conduz a casa ambulante, fazendo com que os colegas demais passageiros se sintam tal qual suínos sendo transportados para o abatedouro. Demonstrando espírito de concordância com o adjetivo a si concedido, “el rubio caliente”, ao assumir o volante cerca de cem quilômetros antes de Paris, proferiu a frase que encabeça o texto, alertando os amiguinhos para mais um trecho de pura aventura e emoção.
Destaque do jogo: Marcelo e a direção ofensiva rumo a Dover.
O mais bizarro: O cheiro do banheiro do camping. Bizarro é a única palavra que explica.
O pior do jogo: Maldito moleque francês.
O gol mais bonito: A primeira visão de Paris.
O lance da noite: A sessão de vinhos do Carrefour, impressionante.
O mais mortinho: Peladeiros se ferrando e acordando atrasados depois de o celular despertar 132 vezes.
O mais fominha: Tamo passando bem, viu galera?
